O setor de flores e plantas ornamentais é hoje o segmento do agronegócio que mais emprega mulheres no Brasil. De acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor), realizada em parceria com o Cepea/Esalq-USP, cerca de 56% da força de trabalho da floricultura é feminina, índice que ultrapassa 60% em algumas regiões do país.
A forte presença das mulheres está relacionada às características da própria atividade, que é intensiva em mão de obra e oferece oportunidades em diferentes etapas da cadeia produtiva. O protagonismo feminino também se destaca em funções de gestão e liderança.
“Além de gerar empregos, o setor permite que muitas mulheres conquistem autonomia financeira, fortaleçam a permanência das famílias no campo e assumam papéis estratégicos dentro e fora da porteira”, afirma a produtora de flores e diretora de mercado do Ibraflor, Raquel Steltenpool.
Participação efetiva
Nas cooperativas do setor, a presença feminina também é expressiva. Na Cooperflora, cerca de 45% dos cooperados são mulheres ou contam com mulheres à frente da gestão das propriedades. Na sede da cooperativa, quase metade do quadro de colaboradores é formado por mulheres, que também ocupam cargos estratégicos.
Entre os exemplos está a cooperada Mariela Grisotto, do Sítio Reijers Alegre, que participa da gestão da propriedade e lidera uma equipe formada majoritariamente por mulheres. Outro nome de destaque é Dorian Reijers, sócia fundadora do Sítio Flores da Terra, que permanece atuante e representa a base histórica da participação feminina na cooperativa.
O protagonismo feminino também tem crescido dentro da Cooperativa Veiling Holambra (CVH). Um dos marcos desse movimento foi a criação do Comitê de Mulheres, iniciado em 2019 e oficialmente lançado em março de 2021. Atualmente o grupo reúne cerca de 140 integrantes e promove encontros, capacitações e visitas técnicas voltadas ao desenvolvimento pessoal e profissional das participantes.
Lideranças femininas
Entre as integrantes do movimento está Raíssa Teresani Scian, fundadora e diretora de Marketing na Swalmen Flores e Plantas, que também coordena o Comitê de Mulheres da cooperativa. Ela conta que sua trajetória até o setor de flores aconteceu de forma inesperada.
“Eu cresci com o pé na terra, passando os finais de semana nas fazendas, mas não imaginava seguir carreira na agricultura. Estudei moda e marketing e trabalhei em agências de publicidade, mas muitos dos meus clientes eram do agro, especialmente do setor de flores e plantas ornamentais.”
A mudança definitiva ocorreu após o nascimento do primeiro filho. “Depois que me tornei mãe, passei a atuar como consultora de marketing e a maioria dos meus clientes continuava sendo do agro. Em 2015, junto com meu marido, decidimos iniciar a produção. Foi a melhor decisão que tomamos. Me apaixonei ainda mais pelo setor e mergulhei no cooperativismo.”
Segundo Raíssa, a presença feminina sempre existiu na floricultura, principalmente por se tratar de um setor com forte tradição familiar. “As mulheres sempre fizeram parte do processo produtivo, mas hoje vemos mais filhas e esposas assumindo a gestão e o manejo das produções, o que torna essa presença mais visível e valorizada.”
Desafios e conquistas
Apesar do crescimento da participação feminina, conciliar diferentes responsabilidades ainda é um dos principais desafios.
“Em sua maioria, mulheres são multitarefas, e essa característica já é um tremendo desafio! Pessoalmente, com certeza o maior desafio é conciliar responsabilidades profissionais com a vida pessoal, especialmente a maternidade, o que exige muito jogo de cintura’. Mas, ao mesmo tempo, esses desafios me fortaleceram. Hoje vejo que cada barreira superada construiu minha segurança, minha autoridade e minha vontade de abrir caminhos para outras mulheres que estão chegando.”
Para ela, iniciativas como o Comitê de Mulheres têm papel importante nesse processo. “O Comitê é um projeto que tem todo meu coração, ele possibilitou encontros frequentes que definiram um espaço de troca,
aprendizado, crescimento e fortalecimento de um grupo com mais de 140 mulheres envolvidas ativamente.”
Raíssa também acredita que características frequentemente associadas às mulheres podem se tornar diferenciais na produção. “A capacidade de exercer diversas funções pode ser usada como um trunfo quando bem empregada.”
Incentivo às novas gerações
Ao falar com mulheres que desejam ingressar no agronegócio, Raíssa destaca a importância da formação e da confiança no próprio potencial.
“Estude, se capacite e confie no seu conhecimento. Você não precisa se masculinizar para ser respeitada nem pedir permissão para ocupar espaços. Trabalhe com ética, firmeza e coragem.” Ela também ressalta a importância da união entre mulheres no setor.





