Tema da Campanha da Fraternidade encontra eco em história real de moradia

Tema da Campanha da Fraternidade encontra eco em história real de moradia

A Campanha da Fraternidade 2026, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tem como tema “Fraternidade e Moradia” e propõe um olhar atento para o direito à habitação digna no país. A iniciativa busca sensibilizar a sociedade para a realidade de milhões de brasileiros que ainda vivem em condições precárias e incentivar ações concretas para a superação do déficit habitacional.

Realizada anualmente durante o período da Quaresma, a campanha é um dos principais movimentos da Igreja Católica no Brasil, abordando temas sociais relevantes e incentivando a reflexão, a solidariedade e o compromisso coletivo. Em 2026, o foco está na moradia como um direito fundamental, diretamente ligado à dignidade humana, à segurança e à qualidade de vida.

Uma iniciativa para inspirar

A proposta dialoga com histórias reais de transformação, como a do Bairro União, em Itobi, que surgiu a partir de um movimento comunitário marcado pela união e pelo esforço coletivo. A iniciativa teve início na década de 1980 e envolveu trabalhadores rurais que enfrentavam dificuldades para conquistar a casa própria.

Segundo Tini Schoenmaker Stoltenborg, uma das idealizadoras do projeto, a experiência foi impulsionada por um contexto semelhante ao que a Campanha da Fraternidade propõe atualmente. “Talvez é interessante saber que este Bairro, em parte, é resultado da Campanha da Fraternidade de 1980 com o tema ‘Fraternidade no Mundo das Migrações” com o lema ‘Para onde vais’. Para meu marido e eu foi o empurrãozinho que faltava para mudarmos radicalmente de vida”.

Ela relata que, ao lado de mais dois casais, iniciou um projeto social e ambiental que deu origem ao Sítio A Boa Terra. Com o tempo, identificaram dois grandes problemas: a insegurança alimentar e a falta de moradia. “O segundo maior problema era não conseguir adquirir uma casa própria. Muitos trabalhavam de diarista, sem registro na carteira para comprovar renda e famílias que trabalhavam e moravam em fazendas, ao serem demitidos, perdiam a moradia”.

A partir dessa realidade, nasceu a Associação dos Sem Casa de Itobi, que mobilizou a comunidade em torno do sonho da casa própria. “Nas reuniões descobriram que todos tinham o mesmo grande sonho! Decidiram ir juntos tentar realizar este sonho”.

O projeto ganhou força com doações e parcerias, além do trabalho em mutirão. “Os blocos de cimento das 107 casas foram todos feitos pelos próprios mutirantes”, relembra Tini. Apesar dos avanços, os desafios também marcaram a trajetória. “Então o maior desafio foi manter a chama acesa e continuar acreditando no sonho”.

Uma história eternizada

A história do bairro, construída com base na solidariedade, inspirou a criação do livro infantil “A História Mágica do Bairro União”, escrito pela professora e autora Viviane Figueiredo. A obra busca levar essa experiência às novas gerações de forma acessível e sensível.

“A ideia de transformar a história do bairro em uma narrativa infantil surgiu com a Tini Schoenmaker Stoltenborg, que esteve à frente do mutirão e é a parceira na publicação do livro. O objetivo é fazer com que essa história seja transmitida às novas gerações”, explica a autora.

Para Viviane, abordar o tema da moradia com crianças foi um processo desafiador, que exigiu pesquisa e cuidado na linguagem. “O maior desafio foi resumir essa trajetória sem deixar de lado os fatos mais relevantes, utilizando uma linguagem simples e envolvente”.

Ela destaca que a obra dialoga diretamente com o tema da campanha deste ano. “Esse tema nos chama a olhar com mais sensibilidade para as desigualdades sociais, para a realidade das famílias que vivem em condições precárias e para a importância da solidariedade na construção de uma sociedade mais justa e fraterna”.

A autora também ressalta o papel da literatura infantil na formação de valores. “Uma criança que lê histórias sobre cuidado, união e respeito tende a construir uma consciência mais humana e social”.

Veja a entrevistas completas:

Entrevista com  Tini Schoenmaker Stoltenborg

O que motivou você e Joop Stoltenborg a iniciar o projeto que deu origem ao Bairro União?

Talvez é interessante  saber que este Bairro, em parte, é resultado da Campanha da Fraternidade de 1980 com o tema ‘Fraternidade no Mundo das Migrações” com o lema ‘Para onde vais’. Para meu marido e eu foi o empurrãozinho que faltava para mudarmos radicalmente de vida e mudarmos em fevereiro de 1981, de Holambra para um sítio encostado em Itobi, para iniciar um projeto social e ambiental. Até hoje temos na parede um pequeno quadro com a gravura desta Campanha.

Vieram conosco mais dois casais: minha irmã Gemma com seu marido Valdir Balazina e uma irmã do Joop, Lucie, com seu marido Nico Groenendijk. Assim nasceu o Sítio A Boa Terra.

O maior problema social mostrou ser a falta de comida na mesa, nos meses em que faltava serviço na lavoura: meados de novembro a meados de fevereiro. Nós não queríamos dar o peixe, mas ensinar a pescar. Assim as pessoas podiam se inscrever para ter em comodato 1 ou meio hectare de terra, por família, para plantar seus mantimentos e vender o excedente. Formou-se a Associação dos Trabalhadores Rurais de Itobi – ATRAI -. Com diretoria própria, reuniões mensais, e 10% da produção ia para o fundo comunitário para compra de implementos, adubo ou o que quer que fosse decidido pelos associados.

O segundo maior problema era não conseguir adquirir uma casa própria. Famílias que trabalhavam e moravam em fazendas, ao serem demitidos, perdiam a moradia. Para a maioria o gasto com aluguel pesava demais no orçamento e muitos moravam em condições muito precárias.

A maior parte trabalhava sem registro na carteira. Nas reuniões mensais da ATRAI descobriram que todos tinham o mesmo grande sonho! Decidiram ir juntos tentar realizar este sonho. Nasceu assim a Associação dos Sem Casa de Itobi. Foi o início de um grande milagre. Ganhamos um terreno da Igreja católica, que 30 anos antes tinha sido doado para a igreja por um fazendeiro, para ajudar idosos e desamparados.

Os blocos de cimento das 107 casas foram todos feitos pelos próprios mutirantes. Uma olaria cedeu suas instalações por um mês para fazermos tijolos para os alicerces. Ganhamos doações da Holanda e Itália para ampliar a casa  financiada de 21m2 , com dois quartos. Assim a casa mais do que dobrou de tamanho.
O  proprietário da Companhia de Energia Elétrica instalou toda a rede de graça. Idem o Sabesp com a rede de água e esgoto. Ganhávamos pó de café e açúcar para o cafezinho no mutirão…

Quais foram os principais desafios enfrentados ao longo desta trajetória?

O prefeito da época fez de tudo para dificultar e impedir a realização deste sonho. É indescritível o que ele aprontava nestes anos e por longo tempo se negava a aprovar o loteamento. Da fundação da Associação dos Sem Casa até a inauguração do bairro levou cinco anos. Mas as 107 casas foram construídas em mutirão em apenas um ano. Então o maior desafio foi manter a chama acesa e continuar acreditando no sonho. Fazer os blocos foi um fator importante. Muitos anjos vieram ao nosso encontro. O diretor de obras da prefeitura de S. João da Boa Vista teve um papel fundamental.

Que mensagem essa iniciativa deixa….
Gostaria de terminar com uma mensagem de Goethe: Para quem gostaria de saber mais a respeito vale a pena conhecer o livro infantil ‘A História mágica do Bairro União’ que a partir da semana que vem estará à venda na Casa Bela Presentes.

Entrevista com Viviane Figueiredo

O que motivou você a transformar a história do Bairro União em um livro voltado ao público infantil?

Sou professora de Arte e também escrevo histórias para crianças. A ideia de transformar a história do bairro em uma narrativa infantil surgiu com a Tini Schoenmaker Stoltenborg, que esteve à frente do mutirão e é a parceira na publicação do livro. O objetivo é fazer com que essa história seja transmitida às novas gerações.

Como foi o desafio de abordar o tema da moradia digna de forma acessível para crianças?

Foram três anos de trabalho. Primeiro, coletei informações por meio de fotos, documentos, jornais, vídeos e, principalmente, de conversas com pessoas que fizeram parte do movimento, entre elas a Tini. O maior desafio foi resumir essa trajetória sem deixar de lado os fatos mais relevantes, utilizando uma linguagem simples e envolvente, capaz de dialogar tanto com o público infantil quanto com os adultos. Decidi incluir fotografias ao lado das ilustrações para dar mais autenticidade à narrativa e também como forma de oferecer aos participantes do movimento um pequeno registro do trabalho realizado. Todo o processo de escrita e ilustração foi feito manualmente.

De que maneira a obra dialoga com o tema da Campanha da Fraternidade 2026, “Fraternidade e Moradia”?

Esse tema nos chama a olhar com mais sensibilidade para as desigualdades sociais, para a realidade das famílias que vivem em condições precárias e para a importância da solidariedade na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Falar de moradia é também falar de cuidado, justiça social, cidadania e compromisso coletivo.

O Bairro União, construído em mutirão, é um exemplo inspirador de como a união, a solidariedade e o esforço coletivo podem transformar sonhos em realidade. Sua história revela a força de uma comunidade que, movida por uma necessidade, pela esperança e pela perseverança, se uniu para conquistar não apenas moradias, mas também dignidade, pertencimento e um futuro melhor para todos.

Qual é o papel da literatura infantil na formação de valores como solidariedade e senso coletivo?

É por meio das histórias que a criança começa a compreender o mundo, o outro e seu lugar na comunidade. Ao acompanhar personagens, seus desafios e sentimentos, a criança aprende a se colocar no lugar do outro. Em vez de apresentar regras de maneira direta, a literatura mostra situações em que atitudes como ajudar, compartilhar, respeitar e cooperar fazem sentido.

Ler não é apenas aprender palavras, mas também ampliar a visão de mundo. Uma criança que lê histórias sobre cuidado, união e respeito tende a construir uma consciência mais humana e social.

Que reflexão você espera provocar nos leitores e nas famílias a partir dessa história?

Histórias que falam de comunidade, memória, bairro, família e convivência ajudam o leitor a perceber que ela faz parte de algo maior. Espero que A História Mágica do Bairro União inspire as pessoas a acreditarem no poder da união, da fé e da perseverança, e a reconhecerem que, por meio desses valores, é possível transformar o meio em que vivem.