Notícia

Jornal da Cidade de Holambra mantém registro da história que acontece nas ruas

Publicado às 10h36 Atualizado em 17 de julho de 2026 às 11h27

Em 1994, quando o Jornal da Cidade de Holambra começou a circular, a cidade ainda dava seus primeiros passos como município. Desde então, obras foram inauguradas, administrações se sucederam, empresas abriram as portas, crianças cresceram, famílias se formaram e tradições ganharam novas gerações de participantes. Parte dessa trajetória ficou registrada nas páginas do jornal.

Ao completar 32 anos de circulação, o periódico reúne um acervo que acompanha a transformação de Holambra muito além dos grandes acontecimentos. São reportagens sobre escolas, esporte, cultura, agricultura, associações, comércio e personagens que ajudaram a construir a identidade da cidade.

Confira entrevista com o Marcelo Soares, jornalista e consultor em análise de dados na empresa Lagom Data. Mestre em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor/Unicamp. Lecionou nas pós-graduações em jornalismo nas universidades ESPM (SP), PUC-RS (RS) e Unimep (SP), foi o primeiro editor de Audiência e Dados do jornal Folha de S.Paulo e é membro do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ).

1. Em cidades pequenas como Holambra, qual é o papel de um jornal local na construção da identidade e memória da cidade?

Não existe nada mais importante, eu diria. Os livros de história de um município vão contar as sucessões de gestões, as histórias dos prefeitos e vereadores e líderes religiosos e grandes empresários locais, as maiores tragédias e principais inaugurações. O acervo de um jornal local conta a história a partir do ponto de vista da calçada. As vitórias e derrotas do time de futebol local, a memória das pessoas que fizeram algo pelo próximo, os percalços das escolas. Sempre que visito um município, gosto de ler seu jornal local, especialmente na versão impressa. É ali que eu conheço um pouco da personalidade local – os personagens, o que movimenta a economia, quais são as preocupações de quem mora lá. Até os anúncios me contam “quem é” essa cidade naquele momento.

Morei por um ano na Alemanha, numa cidade relativamente pequena, e a maior delícia era justamente ler as pequenas histórias do jornal local – por uma semana, eu me diverti com a saga da investigação do roubo de um boizinho do presépio que ficava na estação de trem, por exemplo, ou com uma onda de carros riscados de madrugada quando estacionavam numa certa rua onde, segundo descobriu a polícia, o culpado era um idoso internado num asilo por demência senil.

Jornais locais que cobrem sua cidade contam sua história de um jeito que ninguém mais contará. Essa história não virá das redes sociais, e mesmo o que se posta nelas vai inevitavelmente desaparecer com o tempo. Conhecendo quem somos, podemos pensar melhor em quem queremos ser.

2. De que forma um veículo local contribui para o fortalecimento da cidadania e para a fiscalização do poder público em municípios menores?

Na Alemanha, uma universidade fez um estudo mostrando que, em cidades com jornalismo local forte, havia maiores níveis de confiança social. É perfeitamente compreensível alguém desconfiar do que acontece lá em Brasília, mas se você lê no jornal local que houve um incêndio na esquina da sua casa é só calçar os sapatos para verificar se isso é verdade ou não. Em termos de fiscalização do poder público, é muito mais factível isso acontecer quando um jornal local acompanha o que ocorre na prefeitura do que quando um jornal regional acompanha o que acontece em Brasília. A política que mais tem impacto na vida do cidadão acontece no nível da calçada, que é por onde circulam os repórteres locais. É esse tipo de jornalismo que traz a confiança do cidadão, e é essa confiança que traz impacto. Nenhuma métrica numérica é mais importante do que essa métrica qualitativa.

3. As redes sociais e informação instantânea tomaram conta, o que diferencia o jornalismo local profissional de outras formas de circulação de notícias?

Inverter essa pergunta é a grande questão: o que o jornalismo local faz para se diferenciar do que circula nas redes sociais? Eu diria que o que mais circula nas redes sociais está completamente desconectado do interesse local. É mais genérico – os mesmos assuntos circulando no Brasil inteiro, no mundo. Tanto faz se aquilo saiu no Jornal da Cidade de Holambra ou no G1. Parece uma concorrência com gente grande, mas essa ideia é falaciosa. O que o jornalismo local pode fazer nesse contexto é sobretudo entender o que é relevante para quem mora na cidade. contar a história da cidade e ter uma ligação íntima com os cidadãos, seus leitores e potenciais fontes. O caminho mais certeiro para erodir essa confiança seria abdicar da cobertura local, seu maior diferencial, e focar sobretudo em publicar coisas de fora dela, como noticiário genérico de agências e recozimento de material da internet. Nenhum grande portal da internet, nenhuma rede social, nenhum influenciador, conhece Holambra tão bem quanto este jornal.

4. Na sua avaliação, quais são hoje os principais desafios para a sobrevivência e sustentabilidade dos jornais regionais e de pequeno porte?

Os jornais locais têm exatamente os mesmos desafios dos grandes, só que sem os mesmos recursos. E têm exatamente os mesmos desafios dos regionais, só que com mais foco. O mercado publicitário dos jornais encolheu no mundo inteiro, até os grandes têm essa dificuldade – mas têm maior possibilidade de fechar grandes contratos. O público leitor fiel também encolheu em toda parte. Jornais locais, porém, têm potencialmente a chance de se conectar com quem vive e produz na cidade, tanto como público quanto como parceiro comercial.

O desafio da audiência já pareceu maior, mas não precisa ser. Ele parecia maior quando havia a ilusão de que qualquer publicação concorria potencialmente com todas as publicações do mundo pela audiência de milhões de pessoas. Quando se olha a realidade do que foi esse período, vê-se que essa ilusão só fez bem às big techs e mudou até o tom do que se publica para se adaptar ao que “elas querem”, que também muda. Com isso, cada vez mais, quem apostou num número imenso trazido pelas big techs se desconectou do seu verdadeiro público e está sendo afastado do público das big techs.

Publicações que conhecem sua identidade e seu público sempre estiveram mais próximas do seu verdadeiro público. É com esse que se precisa forjar uma aliança baseada na confiança e relevância social.

5. Quando um jornal local completa décadas de atuação, o que essa longevidade representa para a cidade e para o próprio ecossistema da comunicação regional?

Representa uma voz que merece ser ouvida, uma voz que conhece a personalidade de sua cidade e que tem a memória de quem essa cidade é, já foi e pretende ser.

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