A escolha de uma cidade para viver pode envolver diferentes fatores, como oportunidades profissionais, qualidade de vida e proximidade com a família. Para o arquiteto e urbanista Rodrigo Rocha, morador de Holambra há três anos, a decisão também passou pela educação dos filhos e pela busca de um lugar alinhado aos ideais de vida da família. Natural de Goiânia, ele retornou ao Brasil após quase uma década na Austrália e encontrou no município uma base para dar continuidade à trajetória profissional voltada à construção com terra.
Formado pela Escola da Cidade, em São Paulo, Rodrigo acumulou experiências em diferentes etapas da construção civil durante o período em que viveu na Austrália. Trabalhou por quatro anos como construtor de taipa de pilão, técnica que utiliza terra compactada em camadas para formar paredes, e depois atuou como arquiteto e administrador de obras na Earth House Australia. Também integrou o escritório Steffen Welsch Architects, em Melbourne, com atuação voltada à arquitetura de baixo impacto ambiental.

A experiência prática nos canteiros de obras contribuiu para uma visão integrada da arquitetura. “Todos essas experiências me possibilitaram ter uma bagagem de poder projetar e construir de forma mais holística, onde cada traço no papel já tem um pensamento de processos construtivos, custo financeiro, impacto ambiental e social, assim como a estética final do objeto a ser construído”, explica.
A escolha por Holambra
A mudança para o Brasil foi planejada ainda durante a permanência na Austrália, no período posterior à pandemia. Na busca por uma cidade para morar, Rodrigo e a companheira, Thaís, com quem compartilha a vida há 17 anos, estabeleceram duas prioridades: encontrar uma escola para os filhos alinhada aos seus valores e ficar mais próximos da família extensa.
Com os familiares de Thaís vivendo em Artur Nogueira e os dois tendo formação em Arquitetura pela Escola da Cidade, a região já fazia parte do horizonte do casal. A escolha de Holambra ocorreu a partir da procura por uma escola que correspondesse aos ideais da família. “Ao buscar uma escola que se alinha aos nossos ideais de vida, escolhemos Holambra para viver, de certa forma foi uma escolha bem fácil”, relata.
A terra como matéria-prima da arquitetura
A ideia de criar a Goya Terra surgiu ainda na Austrália, quando Rodrigo começou a planejar o retorno ao Brasil. A proposta era reunir um escritório de arquitetura e uma construtora especializada em taipa de pilão, técnica que passou a fazer parte de sua atuação profissional.
Em 2023, ao retornar ao país, realizou um curso de taipa de pilão em Goiânia, sua cidade natal. A formação permitiu investir em equipamentos e avaliar a demanda do mercado brasileiro por esse tipo de construção. Em julho daquele ano, mudou-se para Holambra e passou a desenvolver suas atividades profissionais também a partir de um espaço compartilhado na Goma Oficina, em São Paulo.
A atuação da Goya Terra se expandiu para diferentes estados, com trabalhos na Bahia, em Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. A escolha da terra como matéria-prima está relacionada à concepção de que a arquitetura deve considerar os impactos de todas as etapas de uma obra, desde a extração dos materiais até a construção e o uso do espaço. “Esta decisão de utilizar a terra para se construir, em especial a taipa de pilão, se alinha com o meu propósito de vida e profissional, em que acredito que a arquitetura é uma ferramenta para melhorar a vida das pessoas, seja no uso da construção, seja no processo construtivo, seja na manufatura dos materiais, assim como na extração da matéria-prima”, afirma.
Para Rodrigo, a adoção de técnicas construtivas de menor impacto ambiental é parte de uma transformação necessária no setor. A construção civil tem participação significativa nas emissões globais de gases de efeito estufa e no consumo de recursos naturais, o que torna a busca por alternativas um tema relevante para a arquitetura contemporânea.
Nesse contexto, a taipa de pilão representa a retomada de um conhecimento ancestral aplicado a projetos atuais. A técnica utiliza terra como principal matéria-prima e pode reduzir a necessidade de determinados materiais industrializados, dependendo das características e das soluções adotadas em cada projeto.
O arquiteto também destaca a importância da normalização técnica para ampliar o uso da técnica no país. A publicação da norma brasileira específica para a taipa de pilão, em 2023, contribuiu para estabelecer parâmetros técnicos e ampliar as possibilidades de aplicação em projetos que exigem conformidade com as normas vigentes. “Ao trabalhar com elementos construtivos de baixo impacto ambiental, de certa forma estamos fomentando um pouco esta mudança, pouco a pouco semeando possibilidades ancestrais de construção que até os dias atuais se mantêm como algo contemporâneo, inovador e de vanguarda”, diz.
Reconhecimento e novos projetos
Em 2026, Rodrigo foi selecionado entre os 15 profissionais destaques do ano e teve um projeto arquitetônico desenvolvido em Holambra escolhido como finalista de um prêmio internacional de arquitetura. Para ele, o reconhecimento ultrapassa a trajetória individual e representa também a visibilidade de profissionais que trabalham com a terra como material construtivo.
“Ganhar prêmios e ser reconhecido pelo que faço é um triunfo de todo um movimento que pertenço, existem muitos outros que já fizeram e estão construindo com terra neste momento, sinto uma responsabilidade de carregar essa bandeira do uso da terra na construção civil, principalmente no meio urbano”, afirma.
Entre os trabalhos em andamento está a construção da Biblioteca Pública Raduan Nassar, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em Buri. A obra prevê quase 100 paredes de taipa de pilão, executadas ao longo de cinco meses, com participação de uma equipe local que recebe treinamento da Goya Terra.
Paralelamente, o escritório de arquitetura mantém projetos em desenvolvimento em diferentes regiões do país. Para Rodrigo, a continuidade desse trabalho envolve ampliar o uso da terra na construção civil e demonstrar como técnicas tradicionais podem integrar soluções arquitetônicas contemporâneas.
