Antes de se tornar um destino turístico conhecido nacionalmente, Holambra tinha um comércio concentrado em poucos estabelecimentos. Padaria, posto de combustíveis, farmácia, loja de roupas, oficina mecânica, mercadinho, restaurante e lanchonete atendiam às necessidades de uma população menor, em uma cidade cuja economia estava diretamente ligada à produção agrícola.
Quem acompanhou essa transformação de perto foi Ronaldo Graat, empresário do Autoposto Pioneiro e vice-presidente da Associação Comercial e Empresarial de Holambra (ACE). Integrante da primeira diretoria da entidade, criada em 1992, ele soma 44 anos de atuação no comércio e acompanha a evolução do setor desde os primeiros anos do município.
“No começo, o comércio de Holambra se resumia a poucos estabelecimentos: uma padaria, o posto, uma farmácia, uma loja de roupas, que é o Magazine Alcione, uma oficina de veículos, um mercadinho, um restaurante e uma lanchonete. Era basicamente isso e muitos já não existem mais”, relembra.

O crescimento não aconteceu de uma só vez. A expansão da atividade produtiva, o aumento da população e o fortalecimento do turismo criaram novas demandas e abriram espaço para outros tipos de negócio. Aos poucos, o comércio precisou se adaptar para atender melhor os moradores e reduzir a procura por produtos e serviços em outras cidades. “As mudanças foram acontecendo quando o próprio comércio percebeu que precisava se profissionalizar e se aprimorar para reter mais consumidores em Holambra, já que a evasão era grande”, explica Graat.
A melhoria das fachadas, a divulgação dos estabelecimentos e a ampliação da variedade de produtos e serviços passaram a fazer parte desse processo. A emancipação político-administrativa, em 1991, também marcou uma nova etapa. No ano seguinte, empresários criaram a então Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Holambra (Aciah), atual ACE, para organizar e representar o setor.
Segundo Graat, a entidade contribuiu para a oferta de serviços, treinamentos e iniciativas de profissionalização. A organização coletiva se tornou parte da estrutura de apoio aos negócios locais.
O comércio, porém, não cresceu isoladamente. A expansão da produção de flores e plantas ornamentais exigiu novos fornecedores, desde empresas de substratos e adubos até lojas de implementos e outros insumos agrícolas. Com mais trabalhadores e empresas, aumentou também a demanda por alimentação, vestuário, serviços e outros produtos.
“Então, a gente pode observar que o crescimento da cidade mostra a ligação entre os diversos setores: conforme o segmento produtivo se expandia, novas empresas surgiam no comércio; conforme o turismo se firmava, novas oportunidades de negócios também aconteceram”, resume Graat.
Visitantes e novos moradores ampliam as oportunidades
A produção de flores ajudou a consolidar a identidade de Holambra, mas foi a expansão do turismo que abriu novas frentes para o comércio. A Expoflora contribuiu para projetar o nome da cidade primeiro na região, depois no estado e em outras partes do país. Com o aumento do fluxo de visitantes, a gastronomia, a hospedagem, o varejo e os serviços ganharam novas oportunidades.
Para Ronaldo Graat, o turismo passou por uma expansão significativa nos últimos 15 anos, atraindo não apenas visitantes, mas também pessoas interessadas em morar no município. O crescimento imobiliário, com novos bairros e condomínios, ampliou a base de consumidores e estimulou a abertura de empresas.
A gerente da ACE, Suzi Nesto Celegatti, também observa essa mudança. Segundo ela, estabelecimentos tradicionais se fortaleceram, enquanto novos negócios chegaram para atender às demandas de uma cidade em expansão. “Muitas empresas do setor do gastronômico também chegaram, motivadas principalmente pelo setor turístico. E, no varejo em geral e nos serviços, também houve abertura de novas empresas, como lojas de variedades, alimentação, saúde e móveis, entre outros”, afirma.
A gastronomia ilustra essa transformação. O Dikomê Garage Bistrô começou a desenvolver suas atividades em 2015 e abriu o restaurante em 2018. Os proprietários Janiele e Alexandre decidiram empreender em Holambra porque já moravam na cidade e receberam incentivo de pessoas próximas.

Dikomê Garage Bistrô

O negócio começou com um food truck especializado em hambúrgueres e sanduíches. Com a aceitação do público, a estrutura foi ampliada para atender à demanda por mais opções e conforto.
Hoje, além do food truck utilizado em eventos, o estabelecimento oferece almoço executivo, pratos à la carte e hambúrgueres no restaurante.
O perfil dos clientes também varia conforme o calendário turístico. “Durante a semana os frequentadores em sua maioria são moradores locais, e aos finais de semana e feriados um fluxo maior de turistas”, relatam os proprietários.
A trajetória mostra como os negócios locais precisam atender a dois públicos que se complementam: quem vive na cidade e quem chega para conhecer seus atrativos.
A chegada de empresas de outros municípios também faz parte desse movimento. O Grupo Daolio, cuja história começou em 1967, em Amparo, inaugurou sua unidade em Holambra em julho de 2022. A loja foi a quarta do grupo, que expandiu suas operações pelo Circuito das Águas Paulista.


Segundo Denis de Oliveira e Souza, gerente da unidade, a escolha de Holambra considerou o crescimento do município e as oportunidades de negócio. “A receptividade desde o início dos trabalhos na cidade nos surpreendeu demais, assim como constantes elogios tecidos pelos nossos clientes e turistas em visita à cidade. As expectativas iniciais foram superadas mês a mês, nos dando a certeza e clareza na prestação do serviço e no bom atendimento pelos nossos colaboradores”, afirma.
A experiência do supermercado também evidencia que a expansão do comércio não depende apenas da abertura de lojas. Conhecer os hábitos dos moradores, adaptar produtos e processos e conquistar a confiança do público são etapas importantes para estabelecer uma presença duradoura.
Empreendedores adaptam formatos para atender moradores e turistas
Se os estabelecimentos tradicionais acompanharam o crescimento da cidade, os empreendimentos mais recentes mostram como o comércio continua se reinventando. A ampliação dos formatos de atendimento, a busca por experiências e a combinação entre serviços presenciais e digitais passaram a integrar a rotina de diferentes negócios.
A Pizzaria Dieggo nasceu em 9 de maio de 2023, como empreendimento familiar de Diego Bento do Nascimento e seu pai, Nilson do Nascimento. A operação começou com entregas em domicílio e, em abril de 2026, passou a receber clientes presencialmente.


A mudança acompanhou uma nova percepção sobre o que o consumidor procura. Se antes a prioridade era receber a pizza em casa, o atendimento presencial abriu espaço para famílias, casais, grupos de amigos e turistas interessados em aproveitar a experiência gastronômica durante a visita à cidade.
“Hoje, percebemos que o consumidor não procura apenas uma pizza de qualidade, mas também uma experiência completa, com bom atendimento, ambiente agradável e momentos especiais ao lado de outras pessoas”, explica Diego.
O empreendedor avalia que Holambra vem se consolidando como destino para além dos grandes eventos, com visitantes também em finais de semana comuns e em diferentes épocas do ano. Esse movimento cria oportunidades, mas exige atualização constante dos estabelecimentos.
A experiência do Dikomê Garage Bistrô segue caminho semelhante. O que começou com um food truck foi ampliado para um restaurante, permitindo diversificar o cardápio e oferecer diferentes formas de atendimento. A estrutura móvel, por sua vez, continua presente em eventos.
Uma cidade com oportunidades de crescimento
No Tulipa’s Lounge, o empresário Josuel Batista, que trabalha há 30 anos no ramo de gastronomia, também encontrou em Holambra uma oportunidade para desenvolver seu negócio. Baiano de origem e morador da cidade, ele destaca a relação construída com a comunidade e a receptividade ao estabelecimento.
Para ele, o turismo é um dos fatores que favorecem a atividade gastronômica no município, enquanto o relacionamento com a população e os órgãos públicos contribui para o desenvolvimento do negócio. “A receptividade do público é muito positiva, a população frequenta e o turismo sempre foi muito bom em Holambra”, destaca.


Essas trajetórias mostram que não existe um único modelo de empreendimento capaz de atender a todas as demandas. Há negócios voltados principalmente aos moradores, estabelecimentos que recebem mais turistas em feriados e empresas que combinam diferentes formatos para alcançar públicos variados.
A diversificação também aparece na chegada de redes de varejo, na ampliação dos serviços e no crescimento de segmentos como saúde, alimentação e mercado imobiliário. A oferta mais ampla ajuda a atender uma população que cresceu e que passou a encontrar na própria cidade mais opções de compra e consumo.
Para os empreendedores, entretanto, a expansão traz uma exigência comum: manter a qualidade e compreender as particularidades de Holambra. Denis Souza, do Daolio, destaca a importância de adaptar a operação aos costumes locais. Segundo ele, a experiência na cidade tem permitido conhecer novos hábitos de consumo e ajustar os processos para fortalecer a relação com os clientes.
Capacitação, presença digital e valorização do consumidor local estão entre os desafios
Com mais estabelecimentos e um público diversificado, o comércio de Holambra enfrenta um cenário diferente daquele dos primeiros anos do município. A concorrência aumentou, os hábitos de consumo mudaram e a presença digital passou a fazer parte das estratégias de venda.
Para Suzi Nesto Celegatti, gerente da ACE, um dos principais desafios é evitar que os consumidores procurem em outras cidades produtos e serviços que poderiam encontrar em Holambra. Outro ponto é conciliar a presença física das lojas com as vendas pela internet. “Os desafios continuam em evitar a evasão de consumidores e aprimorar as vendas no mercado online, conciliando presença digital e física”, afirma.

A pandemia também acelerou mudanças na relação entre empresas e consumidores. Segundo Suzi, os empreendedores estão mais atentos às novas formas de venda e à necessidade de atualização profissional. A procura por capacitação e troca de experiências aparece nas atividades promovidas pela Associação Comercial.
Em 2026, até o período da entrevista, a ACE havia realizado 30 atividades, entre palestras, workshops, grupos de estudos e encontros de networking, que somaram cerca de 980 participações. Os temas incluíram saúde, comunicação, inteligência artificial, liderança e legislação empresarial.
O grupo ACE Networking, voltado à ampliação das relações profissionais, completou cinco anos em 2026. Já o Grupo de Estudos de Legislação Empresarial chegou a dois anos de atividades. Para a gerente, a participação dos empresários demonstra interesse em aprimorar a gestão e acompanhar as mudanças do mercado.
A entidade também tem buscado movimentar a Rota dos Imigrantes, considerada seu principal corredor comercial, com a participação dos próprios comerciantes. A iniciativa reforça a importância da articulação entre os estabelecimentos para atrair consumidores e fortalecer a atividade local.
Apesar dos desafios, Suzi avalia positivamente as perspectivas para o setor. O crescimento da cidade, o turismo e a chegada de novos moradores continuam criando oportunidades, desde que os negócios consigam acompanhar as necessidades do público.
Para os empreendedores, essa adaptação passa tanto pela modernização quanto pelo atendimento. Na Pizzaria Dieggo, no Dikomê Garage Bistrô, no Tulipa’s Lounge e no Daolio, as experiências são diferentes, mas convergem na busca por qualidade, confiança e fidelização.
Aos 35 anos de emancipação, Holambra tem um comércio que reflete a própria trajetória do município: nasceu para atender necessidades básicas de uma comunidade ligada à produção agrícola e se diversificou junto com o turismo, o crescimento populacional e a expansão dos serviços.
A transformação continua em curso. O desafio para os próximos anos será manter a capacidade de atrair novos negócios, preparar os empreendedores para as mudanças no consumo e fortalecer a relação entre o comércio, os moradores e os visitantes.
Como resume Ronaldo Graat, o desenvolvimento dos diferentes setores está conectado. É essa relação entre produção, turismo, serviços e população que ajudou a formar o comércio atual e que continuará influenciando os caminhos da economia de Holambra.
Fotos: Arquivo pessoal
(Reportagem: Vivian Guilherme)