O endividamento das famílias brasileiras segue em alta e preocupa especialistas diante do cenário de inflação, juros elevados e aumento do custo de vida. Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontam que, em abril de 2026, 80,9% das famílias estavam endividadas e 29,7% tinham contas em atraso.
Para o economista e professor livre-docente da Universidade Estadual de Campinas, Marco Milani, o problema não está necessariamente em possuir dívidas, mas na forma como elas são administradas. Segundo ele, grande parte do endividamento atual está relacionada ao consumo imediato e ao uso de crédito com juros elevados.
“Estar endividado não é, por si só, um problema, desde que a dívida seja planejada, compatível com a renda e administrada corretamente. O ponto preocupante é que parcela expressiva dessas dívidas está vinculada ao consumo de curto prazo, e não à formação de patrimônio”, explica.
De acordo com o economista, o uso intenso do cartão de crédito, aliado ao orçamento doméstico pressionado, tem contribuído diretamente para o crescimento da inadimplência. Ele destaca que muitos consumidores acabam confundindo limite de crédito com renda disponível, comprometendo parcelas cada vez maiores da renda mensal.

Entre os erros mais comuns, Milani cita o pagamento do valor mínimo da fatura do cartão, o parcelamento de despesas recorrentes e a contratação de empréstimos caros para cobrir gastos cotidianos. “Pequenas decisões mal planejadas podem gerar uma bola de neve, sobretudo quando a família usa cartão, cheque especial ou crédito pessoal para compensar a perda de poder de compra”, afirma.
Para famílias que já enfrentam dificuldades financeiras, o especialista recomenda reorganizar imediatamente o orçamento, separando despesas essenciais das supérfluas e evitando novas parcelas. Outra medida importante é renegociar dívidas antes que o atraso evolua para inadimplência.
“A recomendação é priorizar o pagamento das dívidas mais caras e renegociar antes que o atraso se torne inadimplência. O problema não é apenas quanto se deve, mas se a dívida cabe na renda futura da família”, ressalta.
Segundo Milani, as dívidas que exigem maior atenção neste momento são as relacionadas ao cartão de crédito rotativo e ao crédito pessoal, devido às taxas elevadas de juros e ao rápido crescimento do saldo devedor. Ele orienta que consumidores busquem substituir dívidas caras por linhas de crédito mais baratas e organizem as contas considerando taxa de juros, valor das parcelas e risco de atraso.
Além do controle financeiro, o economista defende a adoção de hábitos preventivos para evitar novos ciclos de endividamento. Entre eles estão a criação de uma reserva de emergência, o planejamento de compras de maior valor e o diálogo familiar sobre orçamento e prioridades.
“Em síntese, a melhor proteção contra um novo ciclo de endividamento é transformar o crédito em instrumento ocasional e planejado, não em complemento permanente da renda”, conclui.